terça-feira, 26 de julho de 2016

As comunidades cristãs de Suzana e seu relacionamento com a iniciação tradicional Felupe



Tema para debate 

O presente texto é a tradução duma comunicação feita em Italiano à comunidade PIME Guiné Bissau em 30.03.2002
________________________________________

Já desde o título compreende-se que não se trata aqui de considerar o “fanado” como um fenómeno a estudar “in vitro”, num ambiente asséptico, avulso da realidade do dia-a-dia.
Trata-se sim de algo que está profundamente “articulado” com a vida e com a história de pessoas, famílias e comunidades.

Por outro lado a forma de considerar esta realidade a partir do ponto de vista cristão não pode ignorar o que nos é oferecido pela Mensagem que recebemos e de que somos portadores.
Mas no que diz respeito à forma de encarar este tipo de realidade já fiz referência num pequeno estudo precedente que já foi oferecido à leitura da comunidade PIME e, ainda precedentemente” num número de “Inforpime” com o título “Sacramentos da iniciação e tentativas de inculturação” (Fevereiro de 1999).


E’ bom saber já que na história da missão de Suzana verificou-se o facto seguinte: todos, ou quase todos, os batizados já passaram enquanto rapazes ou até adultos, pela iniciação tradicional antes da sua entrada na comunidade, pelo que a sua pesquisa como também a sua reflexão baseia-se não em informações de segunda mão, mas sim na experiência direta, vivida por cada um deles, confrontada a seguir com os dados da mensagem cristã.

Quando em 1968 teve lugar a iniciação em Suzana, a comunidade ainda não nascera oficialmente, ainda não havia batizados, (os primeiros são de Março 1969) e só alguns, menos de vinte, entre os presentes e os ausentes, por razões diferentes e independentes da escolha do "caminho", não foram ao fanado; entre eles, cinco dos que frequentavam a missão católica, por razões de segurança (ameaças de morte) ficaram hospedados na missão. Diga-se desde já que não houve nenhuma retorsão ou vingança contra todos eles, nem de ordem económica nem de ordem social.

E’ o que acontecera precedentemente que nos pode ajudar a compreender os acontecimentos que se seguiram.
O grupo de pessoas que desde anos frequentava a missão aos poucos fora definindo-se e tornando-se estável. Tratava-se de um pequeno grupo que a este ponto já estava constituído e resolvera deixar de frequentar as cerimónias tradicionais para enveredar decididamente pelo caminho cristão.
A tabanca reagira com toda una série de represálias (estamos num meio 99% jola felupe), incluindo espancamento físico e ameaças de morte para os filhos. Foi isto que causou o afastamento e a saída da tabanca do primeiro núcleo, o que deu origem a S. Maria, o bairro “cristão” que não nasceu pela escolha deles nem do padre, mas pela necessidade de sobreviver. Estávamos nos anos 1964-65. Quando eu cheguei, em 1968 logo após a conclusão do fanado, S. Maria contava seis casas: eram os que foram diretamente ameaçados.
(NB. As ameaças não eram só “teóricas”: o chefão era o famigerado João Huloma, alferes dos commandos felupe ao serviço dos Portugueses, protagonista já naquela altura de vários massacres pela Guiné fora. Aliás já alguma criança de Santa Maria morrera “misteriosamente”).

Os homens que viriam depois a serem os primeiros cristãos sabiam que no “fanado” estás completamente à mercê dos “grandes” e que é naquela ocasião que por parte destes “grandes” há “ajustes de contas”  a respeito dos quais nunca ninguém terá a coragem de abrir inquéritos que possam lesar certos “segredos”: sempre a cada iniciação houvera mortes e nem sempre claras.
Com todas as ameaças de que foram objeto, aos de Santa Maria não lhes pareceu prudente entregarem-se mãos e pés aos indivíduos que já os tinham atado e espancado publicamente sem que houvesse alguma reação de qualquer autoridade: aceitaram a sua situação de “excomungados” e ficaram fora do fanado.
Ninguém porém lhes tirou bolanhas ou animais ou algo mais: simplesmente “saíram do caminho dos antigos para pegarem outro”.



Cerimonia de saída do fanado em Iale, Varela (2004)
A coisa tornou-se mais clara para mim muito tempo depois por causa do que aconteceu na tabanca de Ejin, em 1975, mas que eu vim saber só em Janeiro 2002, a saber: uma das primeiras ameaças feitas aos que estavam entrando no caminho cristão (os primeiros batizados de Ejin são de 1980 e o fanado foi em 1996) foi exatamente a respeito do fanado: a tabanca não os aceitaria no fanado, eram praticamente expulsados; porém, como quase todos eles já tinham ido ao fanado, claramente a ameaça visava seus filhos. A culpa deles então não era o “não terem ido ao fanado”, mas sim o terem “deixado o caminho dos antigos”. E tais ameaças foram repetidas também no caso das outras comunidades: sinal de que eles eram privados de seus direitos.

Foi mesmo em Ejin que se deu o caso do Kutujenuió, um homem com seus 80 anos, um dos anciãos encarregados do fanado. Acusado de não ter impedido seus filhos de entrarem no caminho da missão, foi degredado e expulsado da tabanca. Ele foi viver em casa do filho mais velho, acabou por se batizar e faleceu, contente, em 1984.
São factos que iluminam e nos ajudam a compreender o contexto em que vamos desenvolver nossa reflexão.

No mês de Novembro de 1981, em ocasião dum curso de formação para os nossos catequistas, empreendemos a reflexão duma forma sistemática e oficial, coral, em todas as comunidades. O assunto era: As comunidades cristãs de Suzana e seu relacionamento com a iniciação tradicional”, mais especificadamente: “Participação ao fanado por parte dos filhos dos cristãos”.
Logo surgiu uma primeira indicação: ou todos sim ou todos não.
Procedemos com calma, a pequenos passos, discutindo primeiro com os nossos catequistas e anciãos das comunidades nas nossas reuniões mensais que na altura fazíamos peregrinando de comunidade em comunidade. Nem sempre o assunto estava agendado, mas sempre aparecia, até porque Kassolol devia ter o fanado logo em 1987: dávamos contudo o tempo para que falassem no assunto a nível de toda a respetiva comunidade na catequese ordinária, comunicando os passos dados às outras comunidades.

Num primeiro momento os homens exigiram que as mulheres fossem excluídas da pesquisa, visto tratar-se dum assunto exclusivamente “masculino” na mentalidade tradicional felupe. Uma parte consistente do grupo inclinou para a participação dos filhos no fanado. Logo respondi que não podia aceitar a conclusão. Não por aquilo que dizia, mas porque não representava conclusão nenhuma: ainda não tinha havido discussão, e ainda por cima eles tinham excluído as mulheres da consulta.
Tudo estava fora da perspetiva cristã: quer a própria reunião, quer a conclusão que dela brotou por dois motivos: os candidatos à iniciação eram filhos não só dos homens, mas também das mulheres que então tinham direito de serem perguntadas e de darem seu parecer a respeito de seus filhos; aliás o casamento cristão, que dos dois faz um, exigia mesmo isso; etc. etc.

Volvidos uns meses, na segunda reunião em que se falou do fanado, as mulheres estavam presentes e atacaram em forças. Não queriam estar presentes na discussão para carpir segredos, mas porque os filhos eram também delas além do que dos pais e o problema devia ser tratado a nível de família.
Mais ainda as mulheres lembraram que elas tinham sido capazes de tomar decisões graves, como a de não ir mais ao cerco da maternidade tradicional, mas de ter o bebé em casa (com a assistência da irmã), ou no hospital. A reação da tabanca tinha sido furiosa, foram chamadas com nomes feios, foram insultadas de forma atroz, suas casas foram danificadas com gestos que traziam uma mensagem clara: saiam desta terra, não vos queremos mais por aí. Elas aguentaram, não cederam: desta forma abriram caminho para as outras mulheres da tabanca, que começaram a vir dar à luz em casa dos cristãos ou no hospital, em condições higiénicas melhores, com assistência qualificada de matronas. Reduzindo assim drasticamente a taxa da mortalidade no parto.
Os homens ficaram surpreendidos e não encontraram respostas. A conclusão foi: os nossos filhos não irão ao fanado,
Logo rejeitei a conclusão. "Porque não aceitas? Não aceitaste o sim, não aceitas o não: o que é que queres?" "Que pesquisem com mais seriedade, escutando também a Palavra de Deus: a conclusão foi apressada demais. Eu não tenho resposta: os filhos são vossos, o fanado é um facto vosso e as consequências duma decisão serão vocês que as deverão aguentar. Eu só posso ajudar a pesquisar sem esquecer a ajuda da Palavra de Deus.

Graças à intervenção decidida das mulheres, havia mais vontade de pesquisar e refletir. Foi elaborado um esquema para a pesquisa, a análise e a avaliação, como por exemplo: o que é propriamente o fanado, qual a sua finalidade, qual è a sua origem, o que é que traz de positivo, quais os aspetos que podem ser julgados menos positivos ou até negativos, o que é que podia ser melhorado; qual o impacto sobre o caminho cristão como eles o viam à luz da Palavra de Deus, da catequese e da sua própria experiência pessoal; como é que uma eventual participação dos cristãos seria vista pela restante parte da população da tabanca, etc….

Sugeri que, onde fosse possível, fossem perguntar os grandes entre os grandes para terem notícias históricas sobre as origens e a configuração do fanado nas suas tabancas: sabia que teriam feito descobertas interessantes que eles nem suspeitavam, por exemplo que muitos elementos não eram nada antigos e foram importados a partir de outras etnias.
(A coisa resultou numa grande maravilha:  por exemplo com os de Kassolol, para os quais o fanado vinha da noite dos tempos, mas eu sabia que não remontava a antes dos meados do século 19: e a informação foi-lhes dada mesmo certa.)

Resultaram porém outros aspetos iluminantes. Por exemplo resultou que no último fanado precedente a famosa transmissão das “tradições e códigos de comportamento” fora muito limitada, até que nalguns casos os anciãos nem tinham falado porque não confiavam mais nos jovens (que começavam a fugir-lhes das mãos, também por causa da escola…); pelo que estes jovens sabiam o mesmo que sabiam antes do fanado; também em certos grupos toparam em castigos e vinganças, ao passo que noutros grupos as coisas correram de forma bastante pacífica.

A avaliação geral a que se chegou com esta pesquisa, (que levou cerca de cinco anos seguidos)  quando, em 86, na véspera do fanado de Kassolol, foram juntados os elementos recolhidos, foi a seguinte:

- os aspetos negativos superavam os positivos
- a iniciação, a preparação para a vida hoje em dia tem muitas outras exigências, além das que foram “concentradas” no fanado felupe;
- para a nossa gente, nós, os cristãos, demos um passo para frente e os não cristãos estão esperando que façamos outros passos para virem atrás de nós, nem que apareça o contrário: a nossa ida ao fanado queria dizer voltar para trás e reduzir a zero todo o caminho de emancipação dado até agora;
Do ponto de vista cristão surgiu também o seguinte:
ao longo do fanado somos obrigados a cumprir cerimónias e a fazer gestos que colocam de lado Jesus como único Mediador entre nós e Deus, e nos não queremos isto, vai claramente contra a nossa fé; (seríamos obrigados a disfarçar….)

- Para nos dispor e preparar à vida (que já é uma vida NOVA) não temos só sinais postos pelos homens, mas sim sinais que o próprio Deus nos deu, os Sacramentos, através dos quais é Ele próprio que vem ao nosso encontro e nos enriquece de vida: não podemos fingir que não existam!

- Dissemos, e continuamos proclamando que encontrámos uma VIDA NOVA: se voltarmos atrás fecharíamos a porta da vida na cara dos que queriam vir atrás de nós porque nos dizem logo: já sabemos, vocês encontraram uma vida nova, assim dizem; mas quando se trata de fazer algo de sério para esta vida, vocês se lembram que a vida a temos nós, e não o “caminho do branco”: o que evidentemente reduziria a zero toda e qualquer tentativa de evangelização.

A Ejin acrescentaram o seguinte: os nossos irmãos é que sempre nos ameaçaram dizendo que nunca mais nos aceitariam no fanado, até expulsaram Kutujenuió sem respeito nenhum para a sua “grandeza” e nós vamos entregar os nossos filhos em suas mãos?

Mas o argumento que cortou a cabeça ao toiro e que subjaz a todos os outros è o seguinte: o Felupe vê o caminho dos antigos como uma coisa só, um “inteiro” que se aceita ou se recusa “in toto”, globalmente: não é possível deixar uma parte e assumir outra: ou tudo, ou nada: deixas um pedaço? Deixas tudo: não vais ter os pés em dois caminhos. (visão "holística" da coisa)
Assim: se voltares ao fanado, deves assumir todo o resto do caminho antigo e deixar aquele em que porventura te meteste; caso contrário és alguém em quem não se pode confiar, dizes uma coisa e fazes outra. No caso de quereres sair do caminho dos antigos, isso è contigo, estás fora da nossa comunidade.
Isso parece explicar também a atitude dos de Ejin e a expulsão (injustificada) de Kutujenió: a visão “holística”, global da realidade: pertences ou não pertences ao caminho dos antigos, não há descontos.

Porquê então as represálias contra os cristãos? Não podiam deixá-los ir pelo seu caminho? Afinal não era mesmo muita gente.
Aqui há o problema dos cristãos “trânsfugas” os que querem desandar mas não querem assumir suas responsabilidades e então carregam as eventuais culpas sobre os outros.
Eles foram meter os anciãos contra os cristãos “irredutíveis”, os que “faltam de respeito às tradições”.
São os próprios anciãos que o dizem agora, mas sempre em privado, não publicamente: “Nós não sabíamos”, e acrescentam que aqueles cristãos que voltaram ao fanado os enganaram, porque não assumiram o caminho como eles pensavam, mas logo depois do fanado sumiram; eles veem que deixaram a Missa e as demais reuniões dos cristãos, mas nem aparecem aos ritos religiosos do caminho dos antigos; então não são dignos de fé porque estão entre dois caminhos e não apanham nenhum, não se apoiam nalgo mais consistente, superior à condição simplesmente humana. Já há entre os anciãos quem diga: “Melhor vocês, nem que tenham deixado o nosso caminho, porque pelo menos sabemos que encontraram um caminho que é mesmo um caminho e seguem pela frente”.

Contudo há um outro resultado que veio da reflexão e da decisão que dela brotou: uma maior consideração pelo caminho da iniciação cristã e pelos sacramentos da iniciação para os filhos dos cristãos, inseridos num caminho que lhes confere uma identidade, marca uma pertença e envolve toda a comunidade, o que è evidente de maneira particular na celebração do Sacramento da Confirmação. Mas a este respeito veja-se o artigo acima apontado (que talvez irei propor a seguir



Suzana 30.03.2002                                            Pe. Zé Fumagalli


____________________________________________________
Acréscimo, aquando da tradução para português (Maio 2015)
1- Persiste a cantiga segundo a qual os cristãos felupes não levaram os filhos ao fanado porque, na altura do fanado de Suzana em 1998, o Pe. Zé os impediu. Simplesmente ridículo e fruto de má-fé e recusa de informação. Porque então desde 1987 Kassolol, Katon, Ejin fizeram o mesmo e ninguém levantou-se para dizer tal mentira? Porque a coisa saiu só quando foi a vez de Suzana?

2- E’ verdade em vez que a pesquisa acerca da preparação do jovem felupe ao casamento nos desvendou novos segredos e redimensionou notavelmente a importância do fanado na vida da comunidade: a verdadeira iniciação é a tal preparação ao longo de seis anos a partir da declaração da noiva: ela veio antes do fanado e subsiste independentemente dele.
Até se pode dizer que o fanado ainda não encontrou uma colocação certa no universo cultural felupe e no processo de amadurecimento do jovem ao longo de sua vida. Parece ser algo que sobreveio e ainda agora não foi bem integrado na cultura, mas sim justaposto.
Mas isto è objeto de outras pesquisas. Pe. Zé.

Sem comentários:

Enviar um comentário